Emerging Infrastructure Reporter

Em boa parte do mundo, o dinheiro ainda atravessa fronteiras do jeito mais antigo possível: devagar, com custo opaco e dependendo de uma cadeia de intermediários que o usuário final raramente enxerga.[6] É esse atrito que fez as stablecoins saírem do nicho especulativo e entrarem, com mais força, na conversa sobre infraestrutura financeira.

O ponto mais importante não é a promessa de valorização, e sim a troca de trilho.[6][10] Relatórios recentes sobre pagamentos digitais descrevem stablecoins como uma forma de liquidar transferências quase em tempo real, enquanto os rails tradicionais de remessas e corresponsal bancário continuam lentos e caros.[3][6][10] Em um sistema assim, segundos e centavos começam a valer mais do que narrativas de mercado.

Os sinais de mudança já aparecem dentro do próprio setor financeiro.[1][3] Um working paper do FMI observou como algumas empresas de pagamentos transfronteiriços reavaliaram sua posição depois do GENIUS Act, e apontou a Western Union como uma das companhias que anunciou, em outubro de 2025, a intenção de lançar sua própria stablecoin.[1][3][12] Quando uma operadora de remessas entra nesse terreno, não se trata mais de moda cripto; trata-se de defesa de território.

A resposta dos incumbentes também deixou de ser apenas defensiva.[4][7] A SWIFT disse, em setembro de 2025, que trabalharia com mais de 30 instituições financeiras para desenvolver um livro-razão digital compartilhado, com foco inicial em pagamentos transfronteiriços 24/7.[4][7] A instituição opera em mais de 200 países e territórios, com uma base de mais de 11.500 instituições membro.[4][7] É o tipo de movimento que mostra um sistema antigo tentando absorver a inovação antes que ela o desloque.

Na África, essa disputa ganha outra camada porque o continente já viveu uma quebra parecida no dinheiro de uso cotidiano.[2][5][8][11] O dinheiro móvel, liderado por ecossistemas como o M-Pesa, ensinou milhões de pessoas a transacionar sem conta bancária tradicional e criou uma cultura em que a pergunta não é se o banco está no centro, mas se o serviço chega ao telefone.[2][5][11] Dados da GSMA para 2026 apontam que o dinheiro móvel na África Subsaariana movimentou US$ 1,4 trilhão em 2025, cerca de dois terços do total global.[2][5] Essa escala importa porque mostra que a adoção de novos trilhos de pagamento raramente começa no coração dos sistemas bancários já estabelecidos.

É por isso que a hipótese de migração para stablecoins precisa ser lida com cuidado.[2][5][6] A mesma GSMA trata a transição não como substituição automática, mas como um cenário de continuidade e camada adicional, em que novas redes podem aproveitar hábitos já estabelecidos de pagamento digital.[2][5] Em outras palavras: o usuário não acorda querendo blockchain; ele quer enviar, receber e guardar valor com menos fricção. Se a stablecoin não resolver isso melhor que os trilhos atuais, ela fica só no discurso.

Há também o problema da confiança regulatória.[9][12] O GENIUS Act é citado como o primeiro arcabouço federal de stablecoins nos Estados Unidos, e isso importa porque dinheiro programável sem regra clara vira passivo jurídico muito rápido.[9][12] A adoção em larga escala depende menos de entusiasmo e mais de temas áridos: lastro, resgate, supervisão, custódia e interoperabilidade entre redes.[3][9][10][12] Sem isso, a promessa de velocidade pode se transformar em mais uma ilha financeira.

O que ainda não está totalmente verificável é a dimensão real dessa virada fora dos dados mais otimistas do setor.[1][3][10] Números como US$ 1,25 trilhão em volume processado em 2025 aparecem em materiais de mercado, mas precisam ser lidos ao lado de fontes mais duras, como relatórios do FMI, da SWIFT e da GSMA.[1][2][3][4] O que deve ser monitorado daqui em diante é simples: volume líquido de pagamentos reais, custo por corredor, participação de empresas tradicionais e, sobretudo, o quanto a regulação permite emissão e uso cotidianos sem criar novos gargalos.[1][3][4][6] Essa é a diferença entre uma tendência durável e um pico de entusiasmo.

No fim, a pergunta não é se os bancos vão desaparecer. É se parte do que chamamos de banco já está sendo reembalado em outros trilhos — mais rápidos, mais baratos e, para muitos usuários, invisíveis. A infraestrutura muda primeiro o comportamento, e só depois muda a linguagem com que explicamos o sistema. O próximo capítulo a observar é qual rede consegue converter escala em confiança sem perder a simplicidade que tornou o dinheiro móvel tão útil em mercados emergentes.[2][5][10]