Emerging Infrastructure Reporter
A disputa por inteligência artificial no Sul Global não começa no aplicativo que chega ao celular, mas na rede elétrica, no cabo de fibra, no data center e no orçamento público que sustenta tudo isso. Em muitas capitais africanas e latino-americanas, a pergunta menos visível é a mais importante: quem consegue ligar a infraestrutura antes de tentar escalar o uso? Quando a IA vira assunto de soberania, a diferença entre participar e apenas consumir tende a aparecer primeiro nessas camadas silenciosas.
Um relatório de foresight da ONU para Cooperação Sul-Sul descreve a lacuna da IA como um sistema de restrições que se reforçam mutuamente, e não como uma ausência única e isolada.[1][4][7][11] Computação, dados, conectividade, eletricidade, infraestrutura linguística, talentos, financiamento, governança e capacidade institucional aparecem juntos como peças que travam o mesmo mecanismo.[1][4][7][11] Em outras palavras, não basta ter interesse em IA se a base material e regulatória continua frágil.
Essa leitura ajuda a explicar por que a promessa de inclusão em IA costuma soar maior do que o seu alcance real. O PNUD identificou quase 90 startups de IA verde no Sul Global operando na interseção entre energia, infraestrutura digital e sustentabilidade climática.[2] Essas empresas tentam otimizar redes, armazenamento, energia renovável e eficiência de data centers.[2][6][10] O ponto não é romantizar uma solução empreendedora, mas notar que o mercado está sendo empurrado para resolver limitações físicas antes mesmo de falar em inovação avançada.
A Agência Internacional de Energia afirma que a demanda global de eletricidade dos data centers cresceu 17% em 2025, enquanto o consumo ligado especificamente à IA avançou ainda mais, com alta de 50% no mesmo período.[10] Isso muda a conversa de forma prática: modelos mais ambiciosos exigem mais conexão à rede, mais capacidade de resfriamento, mais previsibilidade regulatória e mais capital. Em países onde o fornecimento ainda é intermitente, a IA não é só um problema de software; é uma disputa por lastro físico.[6][9][10] Quando a energia falha, a promessa digital perde o chão.
É por isso que a tese de soberania em IA parece menos abstrata quando sai do vocabulário diplomático e entra no chão da infraestrutura. Um documento do Carnegie Endowment propõe grupos de trabalho Sul-Sul com foco em gargalos específicos, como acesso a computação, dados multilíngues, letramento em IA e experimentação regulatória, com metas limitadas no tempo e entregas operacionais.[3][5][12] A ideia de conectar instituições públicas de computação da Índia, iniciativas africanas de hospedagem regional e ecossistemas no Brasil indica que a colaboração mais útil talvez não seja a que promete autonomia total, mas a que compartilha capacidade de forma coordenada.[3][5][12]
Ainda assim, há um limite importante no que os dados disponíveis permitem afirmar. Os relatórios consultados descrevem barreiras e caminhos de cooperação, mas não provam que os arranjos sugeridos já estejam produzindo escala suficiente para alterar a distribuição global de poder em IA.[1][4][5][7] Também não há uma métrica única e consolidada, nos materiais reunidos, que confirme a cifra de participação de 0,5% em aprendizagem de máquina citada no debate público.[1][4][5] O que se pode sustentar hoje é mais modesto e mais sólido: a assimetria existe, se repete entre regiões e só mudará se houver evidência de investimento contínuo em rede, energia, dados e instituições.
A ONU já vinha defendendo, em seus materiais sobre governança de IA, que países podem combinar recursos, compartilhar conhecimento, fortalecer capacidades humanas, expandir infraestrutura digital confiável e desenvolver aplicações ajustadas ao contexto local.[7][8][11] Isso importa porque muitos mercados emergentes não estão pedindo o modelo completo de IA pronto para uso; estão tentando montar peças compatíveis com suas restrições de idioma, energia, orçamento e demanda pública.
A Índia ganha atenção por sua capacidade de articular coordenação entre países em desenvolvimento em torno de infraestrutura, dados e governança.[3][5][8] A discussão sobre um fórum global de IA liderado a partir do Sul não resolve, por si só, a falta de capacidade computacional, mas pode reorganizar prioridades e compras públicas. Para a África, isso faz diferença em áreas como atendimento ao cidadão, agricultura, serviços financeiros e educação, onde a adoção em escala depende menos de laboratório e mais de distribuição confiável, idioma local e custo baixo por consulta.[3][5][7][11]
O Brasil entra nessa equação por uma razão diferente, mas igualmente material: a matriz elétrica majoritariamente renovável cria uma base mais favorável para data centers e cargas de IA com menor pressão de carbono.[2] Isso não transforma automaticamente o país em hub de IA, mas abre uma janela que outros mercados mais dependentes de combustíveis fósseis não têm.[2][9] Para que essa oportunidade não vire apenas marketing, seria preciso acompanhar dois pontos: se há investimento real em capacidade de processamento e se a expansão vem acompanhada de política industrial e de conectividade, e não só de anúncios isolados. Em infraestrutura, a promessa costuma correr na frente da implantação; é a implantação que decide o resto. O que importa agora é ver quem consegue sair da posição de consumidor e construir, de fato, a camada onde a IA passa a funcionar para mais gente, com menos dependência externa e mais autonomia operacional.
Referências
Referências
As pequenas marcações numeradas no texto apontam para as fontes abaixo.
- [PDF] 1 COVER PAGE Working title: “From AI divide to AI dividend
- THE ENERGY SPRINT OF THE AI RACE
- South-South AI Collaboration: Advancing Practical Pathways | Carnegie Endowment for International Peace
- From AI Divide to AI Dividend: UNOSSC and Partners Explore Practical Pathways for South-South and Triangular Cooperation on AI at HLPF 2026
- Research - South-South Cooperation on AI Policy: From Global Agendas to Local Action
- Electricity Demand and Grid Impacts of AI Data Centers - arXiv
- Anchoring South-South and triangular cooperation in the Global ...
- High-Level D4SD Panel on South-South and Triangular Cooperation for Digital and Artificial Intelligence for Sustainable Development — UN Transcripts
- Powering AI in the Global South
- Executive summary – Key Questions on Energy and AI
- [PDF] Mind the AI Divide - the United Nations
- Advancing a More Global Agenda for Trustworthy Artificial Intelligence | Carnegie Endowment for International Peace
ARTIGOS EM DESTAQUE
Artigos em destaque
-
IA generativa e modelos fundamentais
A África não esperou o banco chegar para redesenhar o dinheiro
Artigo de contexto sobre como a África construiu uma arquitetura de pagamentos e inclusão financeira centrada no celular, com foco em mobile money, interoperabilidade, crédito, reg
-
IA generativa e modelos fundamentais
A instabilidade da Fuji TV pode ser o sinal de uma transformação estrutural na indústria audiovisual
Este artigo de referência aborda a crise envolvendo a Fuji TV não como um escândalo isolado, mas como parte de mudanças estruturais que incluem a redução da publicidade na TV, o de
-
IA generativa e modelos fundamentais
IA de peso aberto está fechando a lacuna cibernética. A lacuna de segurança está se abrindo mais rápido.
Este artigo conecta as últimas avaliações públicas do GLM-5.2 com o problema mais amplo da governança de modelos de peso aberto: a capacidade está convergindo mais rápido do que os